Ella Fitzgerald veio ao mundo no dia 25 de abril de 1917 em New Port News na Virginia (EUA). Filha de Temperance (Tempie) Williams e William Fitzgerald. Embora não fossem casados, William reconheceu a paternidade. A família muito pobre, morava em cômodos alugados na Madison Avenue. O pai, de 35 anos era motorista de carreta, enquanto a mãe lavava roupa para fora.

Um ano após o nascimento da pequena Ella, o pai abandonou a família para não mais voltar. Passado um ano, Tempie foi viver com o imigrante português José da Silva, indo residir em Yonkers, no condado de Winchester, Nova York, 40 quilômetros ao norte de Manhattan.

Em 1923, Tempie deu à luz outra filha, Frances. Até a morte de Frances ocorrida nos anos 60, Ella permaneceu muito ligada à meia-irmã; uma da poucas relações duráveis ao longo da vida. Colegas de infância lembram que Ella era tímida, mas ambiciosa. “Algum dia vocês vão me ver nas manchetes”. “Vou ser famosa”, dizia aos amigos.

Foi na igreja episcopal Betânia que começou a estudar canto e dança; aprendendo canto jazzístico, além de ouvir continuamente música no nascente rádio dos anos 20 e 30. Com a morte da mãe no começo de 1932, abandonou a escola, passando a se apresentar como dançarina. Para sobreviver, vendeu bilhetes de loteria entre 1932 e 1934. Após deixar a casa do padrasto, foi viver na Associação da Infância de Riverdale, um orfanato para negros, até inscrever-se na “Noite dos Calouros” do Appolo Theater no Harlem.

Queria tentar a sorte como dançarina. Desajeitada e mal vestida, optou pelo concurso de melhor cantora.  Como acontece até hoje, todas às quarta-feiras, em 21 de novembro de 1934, a jovem e insegura Ella Fitzgerald interpretou as canções “The Object of My Affection” e “Judy”, do repertório da então famosa cantora branca Connie Boswell (sua grande influência), acompanhada pela orquestra do multinstrumentista Benny Carter. Venceu o concurso daquela noite com um prêmio de 25 dólares.

Carter, que ficara impressionado com sua interpretação, levou-a à presença do bandleader Fletcher Henderson, que se recusou a contratá-la devido a aparência. Naquela noite estava presente na platéia o cantor Charles Linton da big band do baterista Chick Webb. Linton também fora atraido pela interpretação da jovem e falou a respeito com seu líder. A princípio, Webb não queria uma lady-crooner na banda, e ao conhecê-la também não gostou da aparência. Linton insistia e argumentou: “Deixe-a cantar com a banda e, se o público gostar, ficamos com ela. Se não, fora!

Terminado o teste, estava contratada, sendo escalada para uma apresentação pública na Yale University. No início, titubeante e inexperiente, recebeu a orientação do bandleader para vestir-se adequadamente. Webb ensinou-lhe também os segredos para se apresentar em público e a correta maneira de interpretar uma canção.

A estréia oficial daquele verdadeiro diamante bruto que precisava ser lapidado, deu-se em abril de 1935, no famoso salão de baile Savoy no Harlem.

Ella com a Big Band de Chick Webb, ao lado do radialista Martin Block em maio de 1938.

Ella Fitzgerald

A decisão de Webb, aceitando-a como vocalista da banda levou-o rapidamente à fama e ao sucesso. A 12 de junho desse ano, aos 18 anos de idade, Ella Fitzgerald gravou com a banda o primeiro disco de 78 rotações; no lado A – “Love And Kisses”, no lado B -“I’ll Chase The Blues Away”. Naquela metade dos anos 30 estava surgindo a cantora negra que iria deixar sua marca e transformar-se em uma da mais emblemáticas intérpretes norte-americanas do século XX.

Quando o bandleader Chick Webb decidiu contratar a jovem e inexperiente Ella Fitzgerald, não imaginava que a cantora seria o principal fator que levaria a banda à popularidade e ao sucesso; êxito comercial, com altos índices nas vendas de disco ao atingir as “paradas”. Um verdadeiro golpe de sorte de Webb, que lutara anos a fio para tornar-se conhecido no mundo do jazz. Quanto a Ella Fitzgerald, em menos de um ano, atingiu o estrelato com apresentações em salões de baile, no rádio e em uma série de gravações para a Decca Records.

Seu mentor William “Chick” Webb, nasceu em Baltimore Maryland (EUA) em 1909. Criança franzina e com sérios problemas de saúde, além de corcunda. Todas essas vicissitudes superou através da música. Autodidata, aprendeu a tocar bateria sozinho, tornando-se um mestre no instrumento e respeitado pelos colegas de profissão.

O talento natural e a cristalina voz de meio-soprano, consolidaram o prestígio de Ella, e em 1937, o reconhecimento da crítica, ao ganhar o título de “melhor vocalista de jazz” da revista Down Beat; posição que manteve por três décadas.

O grande “estouro” comercial veio com a gravação de “A-Tisket, A-Tisket”, um tema infantil adaptado por Ella e o arranjador Van Alexander e que vendeu mais de um milhão de cópias.

A 11 de maio de 1937, um importante acontecimento ocorreu no Savoy Ballroom do Harlem, famoso reduto onde as mais importantes big bands se apresentavam. Lá eram travadas as célebres “batalhas de big bands” . Naquela noite, de um lado Chick Webb e seus comandados; de outro, Benny Goodman, “o rei do swing” à frente de sua big band. Um público de mais de 4.000 pessoas lotou literalmente o salão, quebrando recorde de bilheteria. Goodman, que liderava uma das melhores “swing bands” da época foi derrotado por Webb que passou a ser chamado de “o rei do Savoy”. Sua lady crooner teve desempenho brilhante. Enquanto cantava, a platéia de braços dados, balançava sem parar com o contagiante swing da banda. Uma consagração; uma noite inesquecível.

Entre 1936 e 1939 a orquestra esteve no topo da fama e em grande evidência,com a agenda lotada e compromissos em inúmeras cidades do país, até a morte de Chick Webb a 16 de junho de 1939, vitimado por uma pneumonia, com apenas 30 anos de idade. Perda prematura e irreparável para a música popular norte-americana, particularmente para o jazz.

Duas semanas após a morte de Webb, Ella Fitzgerald e a banda estavam de volta aos estúdios de gravação em New York. No lugar de Webb, o baterista Bill Beason. Como diretor musical o saxofonista Teddy McRae. Ella como líder e vocalista, agora com os cartazes anunciando: Ella Fitzgerald e sua Famosa Orquestra. Em 29 de junho de 1939, cinco temas foram gravados; entre eles, “I Want The Waiter (With The Water)”, foi o
campeão de vendas, ficando nas paradas em nono lugar, durante três semanas em setembro. Como se viu, mesmo sem a presença física de Webb, a banda continuou a ter
plena aceitação.

As atividades no disco continuaram na Decca Records como antigamente, com gravações até 31 de julho de 1941. O último tema gravado foi “Can’t Help Lovin Dat Man” que recebeu o número 18.241.

No início de 1942, com o país em plena guerra, as dificuldades econômicas começaram a afetar as big bands. O esforço de guerra restrigia o uso de matéria-prima para a fabricação de discos: com a gasolina racionada, era dificil às bandas viajarem para lugares distantes: enfim, tudo contribuia para que elas se tornassem corporações economicamente inviáveis. Inúmeras foram dissolvidas por esses motivos; além da convocação compulsória de seus membros para lutarem no front. Com a big band de Ella Fitzgerald ocorreu o mesmo. No final de junho de 1942, após a última apresentação no Earl Philadelphia Theater, a banda foi desfeita e Ella partiu para a carreira solo.

Tempos difíceis, com todas as restrições da guerra e, a partir de agosto, com a greve
dos músicos imposta pela Federação Americana dos Músicos.

O início da carreira solo de Ella Fitzgerald teve sérios obstáculos. Em plena segunda uerra mundial, com o país mobilizado para combater as forças totalitárias do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), as atividades relacionadas com o entretenimento ficaram relegadas ao segundo plano. A situação piorou a partir de 1º de agosto de 1942, quando irrompeu a greve dos músicos que reivindicavam o pagamento de cada disco tocado no rádio.

Com o impasse, a Federação Americana dos Músicos proibiu a participação da categoria em gravações nos estúdios. Os cantores, que não eram membros do sindicato, podiam gravar acompanhados somente por conjuntos vocais “à capela”. De agosto de 1942 até o final de outubro de 1943 (um ano e três meses) , com o contrato disco-gráfico em vigência, Ella Fitzgerald gravou apenas três temas: “My Heart And I Decided”, “I Put A Four Leaf Clover In Your Pocket e “He’s My Guy”.

Em setembro de 1943, a Decca entrou em acordo com a Federação e foi liberada para gravar com instrumentistas. A 3 de novembro de 1943. Ella entrou nos estúdios acompanhada pelo quarteto vocal The Ink Spots e gravou “Cow-Cow Boogie”, o primeiro êxito discográfico da cantora como solista. Somente no dia 6 de novembro de 1944 gravaria com uma orquestra convencional; a liderada por Johnny Long ao lado do conjunto vocal Song Spinners, interpretando “And Her Tears Flowed Like Wine” e “Confessin’ “. Até aí, um minguado repertório de pouco mais de meia dúzia de canções.

Ella Fitzgerald 1948

Para preencher o vazio existente, dedicou-se a apresentações em clubes noturnos e no rádio, ao lado do conjunto vocal The Four Keys. Até maio de 1945, os tempos continuaram difíceis. Terminado o conflito e desmobilizadas as tropas, o após-guerra criou uma perspectiva de otimismo e esperança para todos.

Em outubro de 1945, o grande impulso na carreira de Ella Fitzgerald, quando gravou o tema composto por Lionel Hampton (recentemente falecido) e Benny Goodman “Flying Home”, que mudou a maneira de se interpretar jazz. Criativo “Scat” do começo ao fim (Scat, uma improvisação vocal onde não se pronunciam palavras, somente sons onomatopaicos).

A gravação teve acompanhamento orquestral liderado pelo maestro Vic Schöen. A data precisa é 4 de outubro. Um marco na interpretação jazzística. Nos anos Decca (1942-1955), Ella gravou em parceria com o trompetista Louis Armstrong e o saxofonista Louis Jordan, seu companheiro na banda de Chick Webb.

Gravou também com os destacados conjuntos vocais The Ink Spots, The Delta Rhythm Boys e The Mills Brothers. Fez registros com temas dos compositores George Gershwin, Cole Porter e Richard Rodgers. Teve também amparo de excelentes arranjos escritos por Sy Oliver, Gordon Jenkins, Bob Haggart e Benny Carter.

Em 1996, a Decca lançou quatro compact discs em uma caixa intitulada “Ella – The Legendary American Decca Recording”, que reuniu o que de melhor deixou registrado na etiqueta. Uma menção; “Undecided”, “How High The Moon” e “Oh, Lady Be Good”, têm a marca interpretativa daquela que passou a ser chamada de “A Primeira Dama do Jazz”. A suave voz de meio-soprano conquistara definitivamente o público.

A partir de 11 de fevereiro de 1949, quando Ella participou do concerto no Carnegie Hall, integrando-se ao movimento liderado pelo empresário Norman Granz,”Jazz At The Philharmonic”, a carreira iria dar um salto qualitativo sem precedentes.

Daí em diante, Granz seria peça fundamental em sua trajetória artística, levando-a finalmente para sua gravadora, a Verve, em meados de 1955.